Este é um artigo que estava querendo escrever há algum tempo, pois aponta um dos problemas com os jogadores hardcore e sua incapacidade de perceberem as coisas, o fato de que eles se reunem em grupo, em fóruns de videogame, para discutir. Isso os deixa mais burros. Mas por que?
Como é possível ver em outros artigos, sou um grande defensor da inteligência coletiva, que a massa é mais inteligente do que o indivíduo, porém, para isso ocorrer, é necessário que certas condições sejam cumpridas. Esse processo foi explicado melhor em "A Sabedoria das Multidões", de James Surowiecki (não que eu recomende a leitura).
No livro, encontram-se exemplos de inteligência coletiva e como ela funciona. Pega-se um grupo e dele se extrai respostas para uma pergunta. Une-se todas as respostas e tira-se uma média. Esta média será mais inteligente que a resposta do indivíduo mais inteligente do grupo, ela é a inteligência coletiva.
Um dos exemplos do livro é bem simples, contando de uma exposição de gado em 1906. O cientista britânico Francis Galton analisou a resposta de várias pessoas tentando adivinhar o peso de um boi gordo. Os fazendeiros que entendiam do assunto, erraram o peso por uma margem de erro maior do que a média de respostas das pessoas que não faziam a menor idéia do que estavam fazendo lá.
Mas a exposição de gado era um exemplo muito simples e pouco refinado, então Surowiecki cita outro, o desaparecimento do submarino Scorpion. Em maio de 1968 o veículo desapareceu quando voltava para o porto nos Estados Unidos após um último contato pelo rádio e ninguém sabia seu paradeiro.
As muitas possibilidades do que poderia ter acontecido, traçavam uma área de busca de trinta e sete quilômetros de diâmetro, impossivel de se cobrir por completo. A marinha procuraria então alguns especialistas que dariam uns três ou quatro pontos onde eles deveriam procurar e teriam que ficar satisfeitos com isso.
No entanto, um oficial da marinha tinha um plano diferente. Em Blind's Man Bluff (O Blefe do Homem Cego), John Craven comenta como resolveu essa situação. Chamou uma equipe da marinha e ao invés de pedir que ponderassem e chegassem a uma solução, começou um bolão, com uma garrafa de uísque Chivas Regal para aquele que vencesse.
Cada pessoa apostava no que teria acontecido e onde o submarino estaria, visando acertar por interesse próprio. O resultado final é que, a opinião coletiva do grupo, todos individualmente tentando acertar, apontou o campo de busca para pouco mais de 200 metros de onde o Scorpion estava, apesar de estar trabalhando praticamente sem informação.
Essa inteligência coletiva não só existe, como e valorizada, sendo utilizada no que chamamos de Mercados de Decisão, ou Mercados de Previsão, entre outros. No fundo, é também o que gerencia o mercado de ações, com todos individualmente tentando acertar o valor de uma empresa, temos maior chance de determinar qual o valor correto dela. (Não que o mercado de ações seja perfeito, mas isso não é assunto pra esse artigo)
Os sociólogos Jack B. Soll, que dá aula de Tomada de Decisão Gerencial, e Richard Larrick, que ensina várias disciplinas no ramo de liderança e organização, ambos da Fuqua School of Business, dizem que temos esse hábito errado de caçarmos o especialista.
No experimento de Asch (1955), um grupo de pessoas deve olhar para uma sequência de cartões, cada um contendo três linhas de tamanhos diferentes e dizer qual dessas três tem o mesmo tamanho de uma linha de controle designada no início. Começa parecendo um teste de visão.
Você é colocado em quinto lugar na fila e as pessoas vão fazendo o teste. Você consegue vê-las à sua frente e consegue ver a decisão delas. Todas elas acertam todos os cartões, exceto o último, onde você acha que a segunda linha é a mais semelhante à linha de controle, porém, todos os outros responderam ser a terceira.
O único objeto de estudo ali, é você. Os outros participantes são apenas atores, com ordens para escolher erroneamente a terceira linha. Três de cada quatro pessoas vão contra sua própria opinião para acreditar na opinião do grupo e dizem que a terceira linha é igual, ao invés da resposta correta, que seria a segunda.
Isto é pura evolução humana. Como grupo, somos mais inteligentes para assim garantir a melhor chance de sobrevivência possível. Porém, apenas quando somos individuais, nos tornamos mais inteligentes como grupo, caso contrário, produzimos cascatas de informação errada, como acontece no experimento de Asch e nos fóruns.
Para que um grupo seja realmente inteligente, os indivíduos do grupo não devem estar cientes de que fazem parte de um grupo. Todos dentro deste grupo devem agir individualmente buscando encontrar a melhor solução para que o conjunto de suas idéias seja a resposta mais inteligente para um problema.
Porém, quando um grupo toma ciência de que é um grupo, os indivíduos dentro dele param de buscar soluções e passam a buscar aceitação. Acreditam que é melhor errar com a maioria do que acertar sozinho, fenômeno descrito por John Maynard Keynes em "Teoria Geral do Emprego, do juro e da moeda".
Um indivíduo dentro de um grupo não vai querer impôr uma opinião muito diferente da maioria do grupo, pois será criticado. Por isso em fóruns ao invés de encontrarmos pessoas inteligentes com pontos de vista diferentes, encontramos um inconsciente coletivo do que é considerado o certo, o qual por sua vez é a opinião mais morna que ofenda ao menor número de pessoas possível.
O ser humano é imitador por natureza, e isso pode ser bom, quando aprendemos através dos outros, mas pode também ser ruim, quando somente fazemos o que os outros fazem por aprovação social. Temos medo de ir na direção contrária e sermos ridicularizados ou deduzimos que se ninguém o está fazendo, é porque não vale a pena.
Caso vocês se lembrem do vídeo da
Brasil Game Show 2010, talvez tenham reparado em algum momento a fila do evento. Havia duas filas, uma gigantesca que virava a rua e uma com pouco menos de cinquenta pessoas. As pessoas da fila grande, não sabiam por que estavam lá, eu ao invés de entrar nela e esperar, dei a volta e entrei pela outra fila.
Essa imitação é exatamente o mesmo mecanismo de segurança que vemos nas formigas. Quando afastadas da colônia, elas têm uma regra básica de sobrevivência: "Siga a formiga da frente", e isso irá salvar suas vidas na maioria dos casos. Existe porém, um evento onde as formigas se prendem em círculos, cada uma seguindo a outra da frente, em looping, até morrerem de fome. São chamados de Circular Mills.
Fóruns de videogame entram em Circular Mills, onde continuam afirmando a mesma coisa e ridicularizando os pontos opostos, sem nunca considerar o que as pessoas falam. Isso leva a bolhas, como acharem que o Nintendo 3DS será um sucesso. E curiosamente, onde há um grupo de "especialistas", está a pior opinião possível.
Por exemplo, no post "
Os primeiros meses do Nintendo 3DS", vemos como as pessoas foram agressivas e irônicas com uma opinião contrária, enquanto afirmavam com certeza que o portátil seria um sucesso, algo que claramente não aconteceu. Na verdade, onde esse artigo foi postado, as pessoas ainda reagem com agressividade e negação.
Em todas as comunidades que eu visitei, por volta de 90% das pessoas discordavam do artigo "
Porque o Nintendo 3DS vai falhar", dizendo que ele seria um sucesso. Não precisei ir muito longe porém para achar um grupo mais inteligente.
Aqui mesmo, nos comentários do blog, 50% achavam que ele falharia, sendo que este número nem mesmo é confiável, já que parte dos comentários, vieram das comunidades mencionadas, mas já demonstra uma grande diferença de acerto.
Isso significa que quanto mais longe de um fórum de videogames, mais inteligente era o grupo.