Lomadee

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Como a Microsoft destruiu Minecraft


Minecraft foi um dos maiores fenômenos no mundo dos jogos nos últimos anos, um joguinho independente que sozinho se tornou um dos mais vendidos de todos os tempos e moldou dezenas de outros ao seu redor. No entanto após seu criador, Markus "Notch" Persson ficar de saco cheio do jogo e vendê-lo para a Microsoft, a empresa conseguiu fazer o que sempre faz: destruir completamente algo bom.

Por mais que eu gostasse de colocar a culpa toda na Microsoft, isso não é possível. Inicialmente Minecraft havia sido feito por uma única pessoa, Notch, e eventualmente a equipe da sua empresa, Mojang, cresceu para um total de quatro integrantes. A morte de Minecraft começa antes da Microsoft comprá-lo, ainda quando ele era de propriedade da Mojang, no exato momento em que Notch parou de ligar para o jogo.

Após Notch criar um jogo tão livre e adaptável como plataforma, o público fez exatamente isso, começou a adaptar Minecraft para seus gostos, com mods, servidores, etc. Minha impressão é que Notch não parecia curtir que tantas pessoas jogassem Minecraft de uma maneira diferente da que ele concebeu. Elas se apropriaram do jogo e talvez seu criador tenha perdido a vontade de trabalhar em algo que não parecia mais seu.

Soon...

Nesse ponto entra o programador Jens "Jeb" Bergensten. Acredito que ele foi o primeiro contratado da Mojang, para ajudar Notch justamente com a parte chata de manter um jogo tão amplo, o código. Até hoje Minecraft não é muito otimizado, afinal foi criado por uma pessoa só e Notch nem parece gostar muito de programar. Jeb começou como uma espécie de ajuda, mas logo estava também adicionando seu próprio estilo e conteúdo ao jogo.

Aqui vemos a diferença de dois tipos de pessoa no mundo da criação de jogos: os que criam e os que adicionam à criação. Para os que criam pode ser difícil imaginar novas coisas para adicionar a um jogo sem necessariamente criar algo novo e para os que adicionam pode ser difícil criar algo novo, porém fácil de adicionar coisas relevantes a algo já existente.

Quando Notch queria algo novo em Minecraft, ganhávamos coisas como o Nether, o The End, O Ender Dragon, o Adventure Mode, o Super Plano. Quando Jeb queria algo novo em Minecraft, ganhávamos mais animais, mais biomas, mais inimigos, mais itens. Dá pra ver como ambos faziam o jogo crescer de maneiras diferentes e o tornavam mais interessante, no entanto um não funcionaria sem o outro.

Depois que Notch perdeu a vontade de trabalhar em Minecraft ficamos apenas com Jeb. Nada mais era criado, tudo era ampliado e melhorado, afinal esse era o estilo de Jeb, sua filosofia. Tornar Minecraft "maior e melhor" era muito distante do sentimento de simplicidade que levou Notch a criar Minecraft em primeiro lugar e isso começou a transformar o jogo.


Essa transformação ainda estava no início quando a Microsoft comprou Minecraft e então ela deu seguimento a essa filosofia como um rolo compressor. Minecraft como uma plataforma, não como um jogo, cada vez com mais coisas, cada vez mais complexo, cada vez menos próximo do que era sua visão inicial e cada vez menos relevante para os fãs que o tornaram um sucesso.

Até hoje o que vemos em Minecraft é a filosofia de Jeb: novo sistema de combate, adição de templos marinhos com um novo chefe, adição de mansões com habitantes assassinos com machados (isso não era um jogo para crianças?), cada vez mais biomas, cada vez mais itens, capas para voar e futuramente uma nova expansão aquática com golfinhos, tartarugas, tridentes, navios afundados e mais.

A Microsoft além de incentivar esse estilo de conteúdo também por sua vez deve ter suas próprias ideias baseadas no que está na moda no mundo dos jogos. Os minigames para jogar multiplayer, loja de conteúdo a venda, criação de conteúdo por usuários, muitas coisas que os jogadores que curtiam a base de Minecraft vão odiar, enquanto crianças podem achar o máximo... por um tempo.

Cada vez Minecraft tem mais coisas, porém ele não parece mais divertido, apenas mais inflado. Coisas pararam de ser criadas nele e agora são apenas adicionadas. Toda a mensagem inicial de Minecraft com simplicidade, coleta de recursos e sobrevivência parece ter se perdido devido a esses novos conteúdos terem vazado para a fórmula original e acabado por estragá-la.


Minecraft era um jogo sobre sobrevivência e aventura, com dias tranquilos e noites perigosas, no qual um jogador se sentia acuado pelo mundo, até começar a conquistá-lo e se sentir poderoso (até ser explodido por um Creeper e começar de novo). O jogador construía itens como ferramentas e armaduras para minerar e obter melhores materiais para se tornar mais poderoso.

Hoje há quase tantos montros de dia quanto há de noite graças a todas as adições que vêm mexendo na estrutura do jogo esse tempo todo. Zumbis e Esqueletos agora são capazes de se esconder em sombras e na água para não serem queimados pelo sol e eu só fico pensando "Me respeita que eu sou da época que zumbi de Minecraft só andava pra frente". Há Bruxas e Slimes em biomas de pântano e zumbis de pele seca em biomas quentes que também não são queimados pelo sol. Antigamente apenas Creepers restavam de dia, o que levou a tantos memes de "O Crepeer explodiu minha casa".

Com tantos monstros durante o dia o jogo perdeu um elemento importantíssimo de seu equilíbrio, o contraste. Antes apenas as noites eram terrivelmente perigosas, mas agora tanto noite quanto dia são problemáticos, então você não tem como ser surpreendido, está sempre preparado. Isso significa que não há uma montanha russa de emoções, a tensão desaparece após você se acostumar com esse mundo, que apesar de mais hostil, se torna inofensivo porque não oferece tranquilidade.

Essa filosofia se reflete também nos itens do jogo. Antigamente você poderia ir com um machado em uma árvore e uma picareta em uma montanha, retirar madeira e pedras para fazer ferramentas. Hoje você receberá frutas da árvore e encontrará pelo menos quatro tipos de pedra diferentes nas montanhas, isso de acordo com o bioma em que está.


Flores que eram apenas um detalhe no cenário hoje produzem corantes para tingir lã, tapetes, camas, criar fogos de artifício e... nada disso realmente adiciona à aventura, só sobrecarrega seu inventário com vários tipos de itens diferentes. Por que até hoje não adicionaram algo tão simples quanto poder criar uma mochila no jogo pra carregar mais itens? Quando Notch determinou aquele espaço de inventário acredito que havia no máximo uns 64 itens diferentes em todo o jogo.

Atualmente há uma quantidade tão grande de itens para ser criada, alguns tão irrelevantes e tão pouco intuitivos de se obter que um jogador novato, e até mesmo um veterano como eu, teriam dificuldade de entender tudo que poderiam criar e todas as possibilidades que o jogo espera que você explore para sobreviver como feitiços e poções.

Vivemos em uma época em que jogos evoluem o tempo todo e na verdade nem sempre isso é bom pois podem mudar coisas que simplesmente estavam boas do jeito que eram. Se Goombas e Tartarugas ficassem mais inteligentes, isso tornaria Super Mario Bros. melhor? Talvez alterasse exatamente o perfeito equilíbrio que torna o jogo tão prazeroso.

Recentemente a Microsoft lançou uma nova versão de Minecraft unificada para todas as plataformas com multiplayer integrado entre PC, Xbox e até Nintendo Switch. Porém, ela tem como base a Windows 10 Edition, o que foi um péssimo negócio para quem tinha a versão feita especificamente para consoles. Por sorte as versões do PlayStation ficaram de fora dessa por picuinha da Sony, senão eu nem estaria jogando agora.


O futuro de Minecraft agora é mais incerto do que nunca. Pode se tornar mais uma das franquias inutilizadas da Microsoft, como as da Rare, que ela mesma estraga mas pensa que apenas se desgastaram naturalmente com o tempo. Um Minecraft 2 teria mais a ver com Sea of Thieves e Fable do que com o jogo original.

2 comentários:

  1. Minteiro, muito obrigado por postar novamente, a gente sente sua falta cara. Não tenho muito apreço pelo Minecraft, mas eu queria saber a causa dele estar decaindo e você fez esse post de presente. Mais uma vez,obrigado ^^

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  2. Eu já acho que alguns jogos e franquias tem naturalmente um ponto de saturação. Um momento em que é difícil ter ideias relevantes, e mais difícil ainda, que não modifiquem a filosofia do jogo.
    Nesse caso, a unica solução seria partir para uma ideia nova ou avaliar se um reboot é cabível.
    Não sei se esse é o caso de Minecraft, mas me lembro de ter parado de jogar justamente pelos motivos que você mencionou.

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