Lomadee

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cultura dos Jogos - Por que só a Nintendo vale a pena


Uma vez um fã do blog me perguntou no MSN: "Por que você não fala das outras companhias, como Sony e Microsoft?", e em vários comentários também já vi coisas como: "Por que você só fala mal da Nintendo?". Eu lembro que respondi ao fã: "Mas não é óbvio? É a única de quem vale a pena falar".

O fato de eu perseguir tanto a Nintendo é porque ela é a única que eu acredito ainda ter alguma chance de ser excepcional. Foi a única que sobrou. É muito pior quando eu nem mesmo falo a respeito de alguma empresa, significa que ela não é muito interessante. E a Nintendo é bem interessante.

A maioria das pessoas acredita que uma afirmação dessas é repleta de parcialidade e fanatismo, mas é muito mais questionável o mágico mundo do arco-íris onde as pessoas que acusam as outras de parcialidade vivem. Um mundo onde todas as empresas tem qualidades e defeitos que as tornam igualmente especiais, como se a vida fosse um episódio dos Ursinhos Carinhosos.

Quando começaram a me chamar de fanático da Nintendo por isso, não fazia muito sentido, pois eu tinha vários consoles e os adorava. Na verdade, sempre gostei mais do meu Dreamcast e PlayStation One que do meu Nintendo 64, mais do Master System que do Nintendo 8 Bits. Ah, então eu era um fanático da Sega. Mas eu também não era muito fã do Saturno, apesar de ter um.

No entanto, o ponto de base é que eu não gostava muito da Sony e Microsoft. Os fóruns e outros jogadores tentam fazer você acreditar que é errado não gostar de alguma empresa, que esse preconceito é sempre algo irracional e que a imparcialidade vem da utopia de que todas são especiais do seu jeitinho.

Obviamente eu nunca aceitei essa versão e parti para descobrir o que me incomodava. Era muito difícil fazê-lo, pois eu demorei para entender tanto de jogos quanto eu entendo hoje, e não sabia verbalizar muitas das frustrações, apenas sentia que algo estava errado. Felizmente eu aprendi bastante com Sean Malstrom, não coisas que eu não sabia, mas a como expressar muito do que eu não conseguia colocar em palavras.

Foi então que eu descobri por que eu não gostava muito da Microsoft nem da Sony, porém apreciava Nintendo, Sega e até mesmo o antigo Atari.


O segredo estava na cultura de jogos. Há dois tipos de cultura, a proveniente dos fliperamas, a cultura arcade, e a que veio dos computadores, a cultura dos PCs.

Atari, Sega e Nintendo, fazem parte da cultura arcade. Seus jogos começaram em fliperamas, ambientes vivos onde eles tinham que provar seu valor e seriam pesadamente julgados pelos jogadores e donos dos estabelecimentos. Eles dependiam dos jogadores, os jogadores eram seus reis.

Enquanto isso, a cultura do PC apelava para jogadores nerds isolados, não precisava agradá-los, eles consumiriam qualquer coisa eletrônica que dissesse que os tornaria especiais. Os jogadores dependiam deles, os jogadores eram seus súditos, e por que não dizer, escravos?

Desde então, o mercado de jogos se molda sobre essas duas faces culturais. Arcade e PC, uma servindo ao jogador, a outra o explorando. Até o fim, a Sega manteve suas raízes, e a Nintendo ainda as mantém também.

Durante o primeiro PlayStation (do qual eu gostava, novamente confundindo os rótulos), a Sony ainda não sabia o que estava fazendo, e ela não tinha cultura própria, aproveitando a cultura bastante remanescente do Super Nintendo que as third parties traziam. Porém, mais tarde, no PlayStation 2, a empresa tentou desenvolver sua própria cultura, a qual me desagradou e se afastou da cultura arcade.

No entanto, as coisas ainda não estavam tão ruins como quando o primeiro Xbox foi lançado. Por pior que eu pudesse achar a cultura do PlayStation 2, ela era própria. Todo console até então trazia sua cultura e enriquecia a indústria de alguma forma. Então o Xbox trouxe a cultura do PC para os consoles.

Se hoje temos videogames com sistemas operacionais que precisam de atualização, HDs, instalação de jogos, foco extremo em títulos de tiro em primeira pessoa, jogos incompletos para vender expansões, entre tantos outros perrengues, é culpa da entrada do primeiro Xbox e sua cultura de PC.


Dentre as duas culturas, há uma que é a correta a se seguir, a arcade.

A cultura do PC foca-se em um nicho e é canibal, isola o jogador naquele mundo e nunca se expande, ela cria uma espiral de oceano vermelho, sempre se focando nos mesmos jogadores, até esse grupo naturalmente encolher. Ela é, por sua própria natureza, auto-destrutiva.

A cultura arcade, por outro lado, promove interação entre todas as pessoas, conquista por cativação de novos jogadores, acessibilidade e expansão do mercado em um oceano azul de novas possibilidades. A cultura de PC pode coexistir com ela para atender as necessidades de um nicho, os hardcores. Porém, se a cultura de PC se torna o foco ao invés da arcade, a indústria ruma para sua própria destruição.

O Wii e o DS foram primores da cultura arcade, mas a Nintendo está um pouco perdida agora. Até mesmo ela precisa levar puxões de orelha de vez em quando.





terça-feira, 24 de abril de 2012

Pokémon - Bom mesmo era nos 151

Estava dando uma volta pela internet hoje quando dei de cara com um trabalho muito interessante. Os 151 Pokémons originais, dos jogos Pokémon Red & Blue e da 1ª temporada do desenho, reimaginados por 151 artistas diferentes, cada um com um monstro e um estilo próprio.

Eles foram exibidos em uma exposição na Light Grey Art Gallery, de Minneapolis, e podem ser vistos no site Pokémon Battle Royale, onde dá pra ver todos os 151 monstros, apesar de o sistema de visualização deles ser um pouco ruim.

Abaixo estão alguns dos meus preferidos, e por pouco eu não posto quase todos aqui:




























segunda-feira, 2 de abril de 2012

Nintendo e a Espiral da Morte


Algum tempo após o meu artigo de que a Nintendo poderia falir, o site Games Radar fez uma pequena nota dizendo "Estaria a Nintendo condenada? Pouco provável. Dê uma olhada em quanto dinheiro ela tem no Banco", que um usuário trouxe ao meu conhecimento nos comentários.

Eu mencionei: "Erros custam caro", mas depois enquanto lia The Innovator's Solution na sala de espera do médico pensei que seria interessante explicar por que eles custam caro, mais precisamente, como funciona uma "Espiral da Morte", que mais parece um golpe de Cavaleiros do Zodíaco.

Em um negócio, há dois tipos de dinheiro de investidores: dinheiro bom e dinheiro ruim.

Dinheiro bom é impaciente para lucrar, ele exige que você tenha um produto lucrativo que possa vender de maneira saudável. Esses investidores são pacientes para crescimento, eles esperam para que sua empresa cresça naturalmente no seu ritmo, seu maior interesse é lucrar enquanto isso.

Dinheiro ruim é impaciente para crescimento, ele quer ver sua empresa crescendo muito, e muito rápido, não importa como. Mas estranhamente, esses investidores têm grande paciência para lucrar. Eles não se incomodam de não lucrar, e até perder dinheiro agora, desde que acreditem que vão ganhar no futuro.

Uma Espiral da Morte (Morra, Seiya!) ocorre quando a maior parte dos investimentos da empresa são dinheiro ruim, ou o dinheiro bom se torna dinheiro ruim, o que também é possível. Ela ocorre em 5 passos que são mais ou menos assim:

1- Sucesso


Obviamente é preciso haver um sucesso. Sucessos como o Nintendo DS ou o Nintendo Wii, geram interesse dos investidores. As ações da empresa começam a subir devido ao sucesso, ela se valoriza.

2- Hiato de crescimento (Growth Gap)


O que acontece quando as ações não param de subir? O valor do futuro crescimento é agregado à venda.

Imagine que eu tenho ações que valem R$ 10 e eu acredito que elas se valorizarão a R$ 2, me dando R$ 12. Eu só as venderia se alguém me pagasse R$ 13, e esta pessoa que pagou R$ 13 provavelmente está esperando R$ 14.

A única forma disso dar certo, é se realmente render R$ 14 ou mais. Isso porque se render menos, haverá um hiato no crescimento, uma lacuna entre o que a empresa cresceu e o que os investidores esperavam que ela crescesse.

Se a empresa crescer R$ 12, as ações cairão e os investidores perguntarão ao CEO: "Como você pretende atingir R$ 16 no próximo ano?". Então acontece o Passo 3.

3- Dinheiro bom fica impaciente


Os investidores esperavam que a empresa crescesse mais do que ela cresceu. Agora eles querem que você cresça mais rápido do que cresceu antes, estão impacientes por crescimento, mas não mais por lucro, veja que ironia, o dinheiro bom está virando ruim.

Só existe uma forma do preço das ações não despencar. Prometer maior crescimento. Nessa fase, as ideias que poderiam salvar a empresa, ideias disruptivas, são rejeitadas, porque não oferecem essa taxa de crescimento exagerada. Nesta fase, a criação do Nintendo DS seria rejeitada.

O Nintendo DS era uma ideia que podia salvar uma empresa, mas ele foi bem humilde, desajeitado, a Nintendo nem sabia se iria dar certo, anunciava como um terceiro pilar. Uma empresa cujos investidores estão impacientes, não pode se dar a esse luxo, eles precisam de um produto agressivo.

4- Executivos toleram perdas temporárias


Está começando a ficar familiar? A empresa convence seus investidores que para ganhar dinheiro, é preciso gastar dinheiro. Agora a transformação do dinheiro bom em dinheiro ruim fica completa, pois eles ficam pacientes pelos lucros, para poderem atingir o crescimento que desejam.

E eles ainda fazem os investidores acreditarem que quanto mais dinheiro investirem, maior será o retorno, então quanto mais a empresa investir nessa fase, melhor. Essa é a fase da fornalha movida a dinheiro.

5- Prejuízos se acumulam, empresa se retrai


Convencida de que precisa gastar muito dinheiro, a empresa investe uma quantidade enorme de dinheiro agressivamente sem qualquer garantia de lucro, além da ilusão de que quanto mais investir, mais irá ganhar.

Porém, um produto que não oferece qualquer valor excepcional não poderá gerar o crescimento necessário. Agora não só a empresa não está obtendo lucro suficiente, como ela gastou mais do dinheiro que tinha. O hiato de crescimento está agora maior do que era no passo 3!

Ela tenta voltar então para a estratégia que estava dando certo, ela se retrai e começa tudo de novo a partir do passo 4. Ela promete crescimento maior, promete investir mais. O dinheiro ruim não tem pressa de lucro, se ilude novamente com a promessa de crescimento.

Os passos 4 e 5 são repetidos até a empresa estar completamente destruída. Parece algo muito óbvio e que nunca aconteceria na prática, mas só parece óbvio para nós que estamos vendo de fora.

Muitos dos melhores CEO não conseguiram fugir da Espiral da Morte, pois qual seria a opção no Passo 3? Você pode dizer que não vai atingir sua meta de crescimento e o preço das ações cai, ou você diz que pretende atingir sua meta e para tanto vai investir dinheiro.

O rombo aumenta exponencialmente, pois a única coisa que você pode dizer quando não atingir a meta é que não foi investido o bastante e então investir mais.